Sobre a gênese da obra de arte

6 11 2011

‎”A obra de arte, esta ‘folle mosaïque’, esta imagem dialética, desencava os tesouros das obras passadas e com eles produz – por citações e fragmentos – uma constelação de novas belezas” (Edson Rosa da Silva).





Semana no teatro

9 08 2011

Essa semana começou, pra mim, com sensação de completude. Acontece que a semana passada, até o domingo, foi de idas quase que diárias ao teatro. Vi coisas maravilhosas que quero compartilhar com vocês e aproveitar para atualizar o blog, aparentemente abandonado.

A primeira delas foi o espetáculo de conclusão da turma 2010/2011 (noite) do Curso Princípios Básicos de Teatro, do TJA, o E se… Assisti na estréia! O texto foi escrito, ao que me parece, em co-autoria por alguns dos próprios atores, e quem assina a direção é o também ator Silvero Pereira, pra quem já rasguei alguma seda por aqui. Fiquei feliz pelo resultado da direção, e ficou claro que muita gente talentosa há de aparecer por aí em próximas montagens.

Em seguida, foi a vez dos meninos do Grupo EmFoco, que, sob a direção de Eduardo Bruno, lançaram ao público um novo espetáculo, Jardim das espécies, criado em processo colaborativo. A peça trata de neuroses no universo feminino e aposta na idéia de ocupação de espaços alternativos. A estréia estava bem cheia para um trabalho que aposta numa estética pouco trabalhada em Fortaleza. Quem quiser conferir, estará em cartaz no Salão das Ilusões aos sábados de agosto. A entrada custa R$16 (inteira) e R$8 (meia). Formam o elenco as atrizes Georgia Dielle, Lívia Marianne e Marie Auip.

Já na sexta-feira pude rever o espetáculo Majestic Bar, do Grupo Majestic, dirigido por Sidney Souto. Trata-se de um trabalho de formação da sétima turma do Curso de Artes Cênicas do antigo CEFET-CE. A peça, que já tem mais ou menos três anos, se passa, como sugere o título, num bar homônimo, no qual o ambiente boêmio cria uma atmosfera de sonho e embriaguez que facilmente contrasta com a lucidez da vida aqui fora. Algumas músicas, de autoria do dramaturgo alemão Bertold Brecht, embalam a peça – todas cantadas pelos próprios personagens.

Entrou também para meu repertório a belissíssima – licença poética – Dom Poder e a revolta da natureza, do Grupo Expressões Humanas. É um infantil lindo, gente, dirigido pela Herê Aquino. Encanta crianças e adultos seguramente. A peça segue em cartaz nos próximos dias 14, 21 e 28 de agosto, no Teatro da Praia. A entrada é gratuita. Levem as crianças, que a satisfação é garantida!

Por fim, vale registrar a satisfação de ver, por acidente de percurso, a esquete O casamento, do Grupo 3×4 de Teatro. A atuação é do Silvero Pereira, e o texto, do Caio Fernando Abreu, ainda não sei se na íntegra ou adaptado. Eu nem estava sabendo da programação do 8º Festival de Esquetes da Cia. Teatral Acontece, o FECTA, mas dei sorte quando saí do Teatro da Praia e soube do programa do Festival.

Enfim. Essas são as novidades do teatro. A semana e o semestre, pelo visto, prometem.





Palco Giratório

3 04 2011

Começou, em Fortaleza, o festival de teatro Palco Giratório, promovido pelo Sesc. A programação completa vocês podem acessar clicando aqui. Os ingressos para os espetáculos custam R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia). O evento se caracteriza por fazer “girar” as companhias de teatro de todo o Brasil, levando-as às cidades onde atua o Sesc. Este é momento de conhecer as produções nacionais da quinta arte. A programação se estende até o final de abril.





Em 2011, ne me quitte pas

3 01 2011

De volta da serra, onde passei a entrada de ano com pessoas maravilhosas, retorno com uma descoberta musical. Me refiro à versão de “Ne me quitte pas”, escrita por Jacques Brel, regravada pela Maria Gadú. É muita sorte começar o ano com uma novidade dessa. Então: abaixo estão os vídeos das minhas versões preferidas, em ordem decrescente de regravação.

Pela Maria Gadú…

Pela Maysa Matarazzo…

Pelo Jacques Brel…

Aproveito, ainda, para destacar os versos de que mais gosto:

Moi je t’offrirai/ Des perles de pluie/ Venues du pays/ Où il ne pleut pas/ Je creuserai la terre/ Jusqu’après ma mort/ Pour couvrir ton corps/ D’or et de lumière

No mais, um feliz 2011 para todos, que o meu já começou excelente: com muito amor, amizade, vinho, música e dança.





Memória, repertório da saudade

21 12 2010

A Eduardo Bruno,
pela maturidade.

 

Todos os finais de ano as pessoas voltam-se para si próprias em busca de lembranças. Uma forma de avaliar o ano que naquele momento se encerra na memória e vira estrela: objetos de contemplação quase que inatingíveis – “quase”, porque às vezes o passado é tão recorrente que insiste em perder sua real condição. Essa prática sempre me causou certo espanto. Não que eu não a pratique, longe de mim, mas o faço de forma distinta de alguns. Quando passo a praticar o exercício da saudade, considero bom aquele ano em que a recordação não foi eficiente o bastante para diferir em que momento a arte não se confundiu com a vida.

E aí volto ao que vi e ouvi – ao que senti não é preciso fazer referência, pois desde sempre me habituei a ver com as mãos, por isso o esforço sobre-humano de respeitar as advertências das galerias de arte que dizem: “Por favor, não tocar”. Nestes dias, então, ocupo o pensamento com lembranças de livros, peças, exposições, filmes, músicas etc. que algumas vezes me fizeram tão bem; outras, contudo, irritaram-me a ponto de contaminar as melhores companhias.

E foram no teatro as maiores alegrias, e as grandes decepções também. O que dizer, por exemplo, de Por Elise (Espanca!, de Minas Gerais), cuja simplicidade da montagem e elegância do texto e das ações me permitiram confirmar que a beleza reside sobretudo nos pequenos detalhes? Escrevi sobre ela há um tempo, aqui no blog, tem um elenco maravilhoso! Outro espetáculo belíssimo foi Veredas da Salvação (Grupo Ser Tão Teatro, da Paraíba), de Jorge Andrade, versa sobre temas pelos quais tenho tanta afetividade: miséria, ignorância e inocência no sertão mineiro, mas que poderia ser o nordestino, facilmente. Já uma produção com a qual tive contato recentemente foi a monumental O Idiota, que também figura na lista das minhas preferidas. Cibele Forjaz, com Aury Porto e Luah Guimarães, responsáveis pela adaptação, transferiram mais de 700 páginas de romance para os palcos, numa peça que tem duração de 7 horas e, em Fortaleza, foi apresentada de um fôlego só, no Theatro José de Alencar. Esta fez eu me sentir um grego! Mas é Inveja dos Anjos (Armazém Companhia de Teatro, Paraná) a minha magia. Assisti a esta também no TJA, e até hoje me arranca suspiros, diferente de todas as outras, que apenas com muito carinho me recordo. Inveja dos Anjos é algo sobre a vida – memória, palavra, angústia, encontros, despedidas, amor, saudade… Além do primor que é o elenco, tem, ainda, na trilha sonora, os clássicos “Creep”, do Radiohead, e “Don’t let me down”, dos Beatles.

Há ainda outras a que dedico um lugar importante. Imediatamente, me recordo das montagens de As Criadas (Teatral Confraria Tambor, Minas Gerais), inspirada na obra de Jean Genet, e de A Cantora Careca (grupo de graduandos em Artes Cênicas da Universidade de São Judas Tadeu), de Eugène Ionesco. Assisti-as em minha visita a Minas, no Teatro da Ópera de Ouro Preto – aquela me fez babar, e esta, quase literalmente, “perder o sentido”; quem conhece sabe do que estou falando.

Mas são de Fortaleza os bons espetáculos por quem tenho muita gratidão, pois estes não me dão a dor da lembrança. Refiro-me, por exemplo, aos Uma Flor de Dama, O Cabaré da Dama e Engenharia Erótica: Fábrica de Travestis (Grupo Parque de Teatro), com textos adaptados e montagem dirigida pelo talentosíssimo Silvero Pereira, que a passos largos tem se tornado um dos grandes nomes do teatro cearense. A trilogia é resultado de um trabalho de pesquisa sobre o universo das travestis, expondo a realidade em que vivem aquelas meninas e desmistificando alguns conceitos mal formulados da nossa sociedade. Já quase perdi as contas do número de vezes que fui (re)vê-los. Do mesmo grupo e também sob a mesma direção também há O Mistério da Cascata, variando um pouco meu acervo memorialístico, prato cheio para quem gosta de humor negro.

Outras peças completam essa lista. En Passant (Companhia Vão de Teatro, Fortaleza), Incelença (Companhia do Rosário, Paraíba), com texto e atuação de Chico Oliveiro, Majestic Bar (da sétima turma formada em Artes Cênicas do IFCE), Pouco Amor não é Amor (Teatro Independente do Rio de Janeiro) – fofíssima, esta! – são alguns exemplos.

Enfim, guardo todas na memória, repertório da saudade. Volto a essas lembranças e retorno certo de que elas, inclusive as não citadas, são componentes essenciais do todo que me forma. Penso que sou capaz de justificar cada pensamento meu com um espetáculo a que assisti – ou com uma música, filme ou livro (!) com que tive contato. E assim meu ano vira memória, saudade.





Memória

26 11 2010

Espetáculo de teatro Inveja dos Anjos, com direção de Paulo de Moraes e dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes

 

“[…] mas isso já faz anos e por isso eu não recordo dos detalhes, mas também não importa, porque o que eu acrescentei da minha cabeça agora já faz parte da minha própria história” (Inveja dos Anjos)





Dilma: “presidente” ou “presidenta”?

2 11 2010

Desde que Dilma Rousseff se candidatou à presidência do Brasil, vários têm sido os artigos publicados acerca da utilização do substantivo “presidente” para se referir a ela. Do ponto de vista gramatical e lingüístico, quase nenhum problema, porque eles não dizem absurdos, pelo contrário.

O que me chama atenção é a resistência no que diz respeito ao uso da forma no feminino e, algumas vezes, as próprias discussões que se fazem em torno do assunto, exageradas e só não desnecessárias porque essas conversas, quando confrontam pontos de vista sóbrios e bem fundamentados, são sempre muito produtivas, sobretudo quando questionam assuntos relacionados à questão do gênero na língua portuguesa.

O fato é que ambas estão corretas. Podemos nos referir à mulher que ocupa a presidência por meio do substantivo na forma masculina – “presidente” –, com a flexão de gênero no caso do uso do artigo ou com a utilização de um qualificador feminino, como “mulher”. É correto, ainda, a utilização da forma no feminino – que eu defendo, e já direi o porquê –, “presidenta”, que já foi, inclusive, dicionarizada.

Até aí tudo bem. Tudo correto e válido. No entanto, escolher “presidente” ou “presidenta” para se referir à primeira mulher eleita para ocupar o cargo no País mais de que uma questão gramatical, que pode causar estranheza – quando da opção pelo substantivo feminino – ou não aos falantes, é uma escolha política.

Digo isso porque a gente vive um momento histórico com a eleição da mulher que, como se já não fosse um grande avanço ser eleita, conseguiu a façanha em sua primeira candidatura, não (!) importando aqui o apoio do Lula. Penso que se referir a ela como “presidenta” extrapola a ladainha do estranhamento que sentem os falantes pelo uso de uma forma pouco utilizada, mas diferencia e valoriza a conquista da mulher e do que espero que seja o governo da nova chefa: democrático, com política para todos, o que inclui minorias e excluídos.

Mas ao que não dá para não fazer menção é ao argumento de que o substantivo feminino “presidenta” pode causar estranheza ao povo, por isso devemos optar pelo uso do masculino. Ora, “presidenta” é uma palavra que não faz parte do discurso do brasileiro. Afinal, quando, meu Deus, a gente, no Brasil, teve uma mulher ocupando essa função?

Longe de querer parecer militante, o que eu realmente não sou, acho de muito bom gosto que nós difiramos a condição de Dilma: ela é presidenta e não presidente. Até agora, ela é um acontecimento incomum na história dos nossos chefes de Estado e merece ser reconhecida por isso; e não me refiro apenas à sua individualidade, mas à coletividade, à representatividade feminina que hoje ela carrega consigo. Acho que sua eleição é uma apologia e um louvor à mudança e à diferença, traço este – diferença – que nos caracteriza e consolida enquanto seres humanos: distintos.